Pequenas e médias empresas brasileiras enfrentam um paradoxo: são alvos cada vez mais frequentes de ameaças corporativas (cibernéticas, operacionais e regulatórias) mas ainda operam, em grande parte, sem qualquer estrutura formal de gestão de riscos.
O Mapa de Empresas do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) aponta que o Brasil registrou saldo negativo de mais de 2,4 milhões de encerramentos de empresas entre 2024 e o primeiro trimestre de 2025; e micro e pequenas empresas responderam por aproximadamente 97% desse total.
Parte significativa dessas falências tem raiz direta na ausência de planejamento preventivo e visibilidade sobre riscos reais do negócio. Portanto, ajudar o cliente a mapear e mitigar riscos deixou de ser diferencial competitivo e passou a ser parte do serviço essencial de um MSP.
Este artigo explica como fazer isso na prática.
O que é gestão de riscos corporativos (ERM)?

A Gestão de Riscos Corporativos - Enterprise Risk Management - (ERM) é um processo estruturado para identificar, avaliar, monitorar e responder às ameaças que podem impactar os objetivos de uma organização. Segundo a PwC Brasil, o ERM "integra princípios de gerenciamento de riscos e funções de negócios para consolidar, coordenar e executar decisões baseadas em riscos."
Na prática, isso significa que uma PME bem gerida não espera o incidente acontecer para agir. Ela antecipa cenários, quantifica impactos e define respostas, antes da crise.
O estudo Gerenciamento de Riscos 2024, da KPMG Brasil, analisou os 25 fatores de risco mais citados por 282 empresas abertas brasileiras.
As categorias que mais aparecem: riscos regulatórios (95%), riscos operacionais (93%) e condições políticas, econômicas e de mercado (92%). O ambiente tecnológico também figura com destaque: 79% dos respondentes reconhecem riscos relacionados à segurança cibernética, e esse número tende a ser ainda maior no universo das PMEs, onde os controles são mais frágeis.
O framework mais adotado internacionalmente para estruturar essa gestão é o COSO ERM, complementado pela ISO 31000, que oferece princípios e diretrizes adaptáveis a empresas de qualquer porte.
Para PMEs, a adoção de qualquer um desses modelos, mesmo de forma simplificada, já representa um salto significativo de maturidade.
O cenário de ameaças que todo MSP deve mostrar ao cliente

Antes de propor qualquer solução, o prestador de serviços de TI precisa contextualizar o risco. E os dados disponíveis são contundentes.
O Brasil como alvo prioritário
Nos primeiros seis meses de 2025, a Fortinet identificou 314,8 bilhões de atividades maliciosas direcionadas ao Brasil, um número que supera o total de todos os ataques registrados no país em 2023 inteiro.
O Brasil ocupa a segunda posição no ranking global de países mais atacados digitalmente, segundo dados do setor.
A Kaspersky, em seu Panorama de Ameaças para a América Latina, registrou mais de 700 milhões de ataques cibernéticos ao Brasil em um período de 12 meses; média de 1.379 tentativas por minuto. E entre 2023 e 2025, a empresa identificou crescimento de 340% em ataques direcionados especificamente a PMEs brasileiras, impulsionado por campanhas de ransomware-as-a-service.
PMEs: o alvo mais vulnerável
Globalmente, o Verizon 2025 Data Breach Investigations Report, que analisa mais de 22.000 incidentes e 12.195 violações confirmadas, chegou a uma conclusão definitiva: as PMEs absorvem cerca de quatro vezes mais violações de dados confirmadas do que grandes organizações.
O ransomware está presente em 88% das violações que afetam PMEs, contra 39% em grandes empresas.
No Brasil, o custo médio de uma violação de dados para empresas de médio porte chegou a R$ 7,8 milhões em 2024, segundo dados da IBM e ISH Tecnologia. E um dado ainda mais impactante: 60% das pequenas empresas fecham as portas em até seis meses após um ataque cibernético significativo, sem recuperação financeira ou reputacional possível.
As ameaças mais comuns em PMEs brasileiras
Com base em dados do setor e nos vetores mais explorados em 2024–2025, as principais ameaças que afetam PMEs no Brasil são:
Phishing e BEC (Business Email Compromise): porta de entrada para a maioria dos ataques.
O phishing cresceu 127% no Brasil em 2024, com campanhas cada vez mais segmentadas, e-mails que citam o nome da empresa, do gestor e de fornecedores reais. O prejuízo médio por incidente de BEC varia entre R$ 80 mil e R$ 500 mil.
Ransomware: malware que criptografa dados críticos e exige resgate em criptomoeda. O custo total de um incidente — resgate, downtime e recuperação — costuma ser 5 a 10 vezes o valor do resgate pedido. Em 2025, 2025 foi o pior ano da história para ransomware globalmente, com aumento de 8% no volume de ataques (ThreatDown/Malwarebytes 2026 State of Malware Report).
Ataques DDoS: sobrecarregam servidores e deixam sites e sistemas de PMEs indisponíveis por horas. Mais de 370 mil casos foram registrados no primeiro semestre de 2024 no Brasil.
Comprometimento de credenciais: exploração de senhas reutilizadas ou fracas para acesso não autorizado a sistemas críticos, um vetor crescente especialmente em ambientes com baixa adoção de autenticação multifator.
Exploração de vulnerabilidades conhecidas: dados do IPS da SonicWall mostram que as vulnerabilidades mais exploradas contra PMEs entre 2022 e 2024 eram conhecidas há anos, muitas com patches disponíveis.
A maturidade digital das PMEs brasileiras está na faixa de 35 pontos em uma escala de 0 a 80 (estudo PEGN, 2024), o que explica a dificuldade em corrigir até os problemas já identificados.
Como estruturar o mapeamento de riscos em uma PME

O papel do prestador de serviços de TI vai além da instalação de ferramentas. Envolve conduzir o cliente por um processo de descoberta e priorização de riscos. Veja como estruturar essa jornada:
1. Inventário de ativos e mapeamento da superfície de ataque
O ponto de partida é saber o que existe para proteger. Isso inclui levantamento de todos os dispositivos conectados à rede, sistemas em uso (on-premise e cloud), dados sensíveis armazenados e processados, e integrações com terceiros: fornecedores, parceiros, plataformas de pagamento.
Sem esse inventário, qualquer estratégia de segurança é construída sobre terreno instável.
2. Identificação e classificação de ameaças
Com o inventário em mãos, o próximo passo é mapear quais ameaças são relevantes para aquela operação específica. Uma PME do setor financeiro tem perfil de risco diferente de uma empresa de logística ou de um escritório de contabilidade.
A classificação deve considerar probabilidade de ocorrência e impacto potencial, dois eixos que formam a base de qualquer matriz de riscos.
3. Construção da matriz de riscos
A matriz de riscos é uma ferramenta visual que organiza as ameaças mapeadas em quadrantes de prioridade. Riscos de alta probabilidade e alto impacto devem receber atenção imediata. Riscos de baixa probabilidade e baixo impacto podem ser monitorados com menor urgência.
Para PMEs, recomenda-se começar com uma matriz simplificada de 4 categorias: Crítico / Alto / Médio / Baixo e revisá-la periodicamente, no mínimo a cada seis meses.
4. Definição de controles e plano de mitigação
Para cada risco identificado como Crítico ou Alto, o MSP deve propor um controle específico. Aqui entram as soluções técnicas, mas também políticas, processos e treinamentos.
Controles técnicos prioritários para PMEs incluem:
- Firewall de próxima geração (NGFW): inspeção profunda de pacotes, bloqueio de tráfego malicioso em tempo real e controle granular de aplicações. É a primeira linha de defesa perimetral.
- Proteção de DNS: bloqueio de domínios maliciosos na camada de resolução, antes mesmo que o tráfego chegue ao endpoint. Especialmente eficaz contra phishing, malware e comando e controle de ransomware.
- Backup segmentado e testado: cópias em ambientes isolados, com teste periódico de restauração. Um backup não testado é um risco disfarçado de segurança.
- Autenticação multifator (MFA): reduz drasticamente o impacto de credenciais comprometidas.
- Gestão de vulnerabilidades: ciclo contínuo de scanning, priorização e aplicação de patches.
Para MSPs que precisam entregar proteção real sem complexidade operacional excessiva, o Edge Protect é a resposta na camada de perímetro. Um NGFW com DPI, IDS/IPS e controle de aplicações em uma solução pensada para o contexto de PMEs — integrável à stack do MSP e com gestão centralizada.
Para a proteção na camada de DNS, o Edge DNS Insights oferece visibilidade total do tráfego DNS da rede do cliente, com bloqueio automático de ameaças antes do estabelecimento de conexão maliciosa.
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5. Conformidade com a LGPD: risco regulatório que não pode ser ignorado
A maioria das PMEs brasileiras ainda não está em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) — e isso representa um risco regulatório concreto. Com a Lei 15.352/2026 ampliando os poderes da ANPD para investigar, autuar e punir, as multas de até 2% do faturamento anual passam a ser uma ameaça real, não teórica.
O MSP deve incluir no diagnóstico de riscos uma avaliação básica de conformidade com a LGPD: quais dados pessoais são coletados, como são armazenados, quem tem acesso e como são transmitidos.
6. Plano de resposta a incidentes
Mesmo com os melhores controles preventivos, incidentes acontecem. PMEs sem um plano de resposta documentado perdem tempo precioso nas primeiras horas; e é justamente nessa janela que o custo do incidente se multiplica.
O plano deve definir, minimamente: quem aciona quem, quais sistemas são isolados primeiro, como comunicar clientes e parceiros, e qual é o procedimento para acionamento do backup.
7. Monitoramento contínuo e revisão periódica
Gestão de riscos não é um projeto com começo, meio e fim. É um processo contínuo.
O MSP que entrega monitoramento contínuo; de tráfego de rede, logs de segurança e alertas de ameaças, entrega um valor recorrente que justifica contratos de longo prazo.
O papel estratégico do MSP na gestão de riscos da PME
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Gestão de riscos é prevenção, não burocracia
Com mais de 2,4 milhões de empresas encerradas em pouco mais de um ano no Brasil, e com ataques cibernéticos crescendo 340% contra PMEs, o custo de não gerenciar riscos é mensurável e imediato.
Para os MSPs, lave ressaltar: estruturar a gestão de riscos dos seus clientes não é apenas responsabilidade técnica. É uma oportunidade de ampliar o escopo dos contratos, aprofundar o relacionamento com o cliente e construir uma base de receita recorrente sólida; com serviços que entregam valor estratégico real.
O que falta, na maioria dos casos, é o profissional de TI que chegue antes do incidente.
Starti Group é referência em cibersegurança, proteção de borda, gerenciamento e infraestrutura para PMEs e MSPs no Brasil. Com a vertical Vituax by Starti, o grupo passa a oferecer infraestrutura de nuvem privada de ponta a ponta para o mercado corporativo — com o suporte consultivo que os hyperscalers globais não entregam.